| Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos |
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Percepções, problemas e prioridades identificados pelas mulheres Ashaninka da região do Rio Ene do Peru
>>Disponível em Word e PDF / Disponível em espanhol e inglês
Resumo: De Giovana Cavero Mogollón com Astrid Bant Haver. Visão geral dos resultados de uma série de workshops participativos sobre saúde sexual e reprodutiva das mulheres indígenas das comunidades Asháninka localizadas na remota selva amazônica do Peru. Esses workshops foram organizados por colegas da ACPC, uma organização que vem trabalhando com a comunidade Asháninka há mais de 15 anos (4 páginas). Sobre a ACPC e os Ashaninka Buscando o equilíbrio entre as metas de conservação e desenvolvimento, a Asociación para la Conservación del Patrimonio de Cutivireni dedica-se à proteção dos territórios naturais e à manutenção do patrimônio cultural do povo Ashaninka. Com terras ancestrais que se estendem pelas florestas de Junín, Pasco, Huanuco e Ucayali, os Ashaninka constituem o maior grupo indígena da Amazônia peruana. A ACPC vem desenvolvendo atividades nas comunidades Ashaninka há mais de 15 anos, mantendo uma presença regular durante anos de violência, invasões territoriais e distúrbios sociais. A regularidade dessa presença construiu uma atmosfera de confiança entre a Associação e as comunidades a que ela atende, o que permitiu que a ACPC estendesse seu trabalho para áreas de maior sensibilidade cultural e explorasse um amplo conjunto de intervenções sociais. Reconhecendo o papel central que a mulher Ashaninka desempenha na reconstrução e no fortalecimento de suas comunidades, a ACPC lançou recentemente um programa para a mulher, enfocado em três áreas principais de ação: geração de renda e venda de artesanato tradicional; fortalecimento das organizações comunitárias, compostas de forma desproporcional por mulheres; e saúde reprodutiva. A ACPC desenvolveu o programa de saúde reprodutiva sob a direção técnica constante da IWHC, baseando seu trabalho de pesquisa preliminar em uma metodologia de auto-avaliação, desenvolvida pelo Movimento Manuela Ramos, colega da IWHC, na década de 1990. Essa metodologia, conhecida como “autodiagnósticos”, utiliza jogos e exercícios em grupo para ajudar as mulheres indígenas a analisar sua vida, identificar seus problemas de saúde e refletir sobre os serviços de saúde que recebem. Comprovou sua eficácia no empoderamento de mulheres indígenas extremamente pobres das regiões andinas e amazônicas do Peru e, desde então, foi adotado por outras organizações latino-americanas como modelo regional para trabalhos de pesquisa social de baixo para cima. A ACPC solicitou ajuda à IWHC pela primeira vez em 2002 para elaborar seu programa de saúde reprodutiva em torno dessa abordagem. A Associação tinha se inspirado na publicação Género y Salud Reproductiva: Escuchando a las Mujeres de San Martín y Ucayali (Gênero e saúde reprodutiva: Escutando as mulheres de San Martín e Ucayali), de Angélica Motta e Astrid Bant, ex-Chefe de Programa da IWHC para a América Latina. Em 2002, a IWHC financiou um estudo participativo para determinar o trabalho futuro e ampliar a conscientização a respeito das necessidades das mulheres indígenas em matéria de saúde sexual e reprodutiva. Ao longo desse processo, a IWHC empenhou-se em assegurar que a ACPC realizasse seu trabalho de pesquisa levando em conta a perspectiva de gênero e que as prioridades da Associação fossem orientadas pelas preocupações, necessidades e direitos da mulher Ashaninka. Graças a seu conhecimento das prioridades e dinâmica locais, bem como à sua história de equilíbrio entre o desejo de preservar o patrimônio cultural e a necessidade de implantar um desenvolvimento sustentável na comunidade Ashaninka, a ACPC estava naturalmente capacitada para realizar esse projeto e os workshops tiveram grande êxito. Com base em seus resultados, a ACPC está atualmente coordenando um trabalho concertado entre a comunidade e o sistema local de atendimento à saúde para sanar as deficiências culturais, lingüísticas e de gênero existentes que impedem a mulher Ashaninka de exercer seus direitos de saúde sexual e reprodutiva. A Associação está colaborando com as mulheres locais em projetos em nível comunitário e trabalhos de promoção para abordar as necessidades da mulher, capacitar mulheres locais fluentes em Ashaninka e espanhol para atuarem como promotoras de saúde na comunidade, orientando seus esforços para assegurar que os profissionais locais da área de saúde — na maioria homens que falam espanhol — incorporem em seu trabalho um enfoque sensível aos aspectos culturais e de gênero. Figura, a seguir, um resumo dos resultados de um workshop preliminar da ACPC com mulheres ashaninka, intitulado “Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos: Percepções, problemas e prioridades identificados pelas mulheres Ashaninka na região do Rio Ene”. Pode-se fazer um download deste resumo no formato PDF clicando no link no alto desta página. No pé da página, há uma lista dos recursos relacionados, incluindo links para o Resumo Executivo original e para o relatório completo, ambos em espanhol.
Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos:
Percepções, problemas e prioridades identificados pelas mulheres Ashaninka da região do Rio Ene do Peru Giovanna Cavero Mogollón e Astrid Bant Haver (Esta é uma adaptação do Resumo Executivo do estudo completo) A Asociación para la Conservación del Patrimonio de Cutivireni (ACPC) vem trabalhando com as comunidades Ashaninka do distrito do Rio Tambo da Amazônia peruana desde 1987. Como parte de um programa mais amplo sobre a mulher, o programa de saúde reprodutiva da mulher da ACPC tem por objetivo melhorar a saúde da mulher Ashaninka mediante uma abordagem dos direitos humanos sensível aos aspectos culturais. Baseando seu trabalho na filosofia de que as mulheres devem reconhecer seu direito fundamental a uma saúde adequada para poder ter vida verdadeiramente saudável e produtiva, a meta do programa é conciliar as necessidades de saúde da mulher Ashaninka com os princípios que estruturam seu ambiente natural e social. A ACPC lançou seu programa de saúde reprodutiva em 2002 com um projeto de pesquisa participativa apoiado pela IWHC. Os resultados deste projeto são apresentados detalhadamente no relatório completo, intitulado "Salud y Derechos Sexuales y Reprodutivos: Percepciones, Problemas y Prioridades Definidos por Mujeres Asháninkas del Río Ene" (Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos: Percepções, problemas e prioridades identificados por mulheres Ashaninka do Rio Ene). Os links para o relatório completo (em espanhol) e para uma versão em espanhol deste resumo executivo estão listados abaixo. Reconhecendo a importância das informações resultantes do projeto, a ACPC sentiu-se motivada a compartilhar suas conclusões com um público mais amplo. A ACPC espera que sua experiência com as mulheres Ashaninka sirva tanto de modelo para futuros trabalhos com populações indígenas na área da saúde sexual e reprodutiva quanto de prova de que trabalhos semelhantes não precisam pôr em risco nem desrespeitar as crenças e práticas tradicionais na área da saúde. Segue uma breve descrição da metodologia da pesquisa e dos resultados obtidos, além de uma lista de ações preliminares para melhorar a saúde reprodutiva da mulher indígena e proteger seus direitos, com base no conhecimento transmitido pelas mulheres do Rio Ene. Objetivo O principal objetivo da pesquisa foi: 1. identificar e analisar as práticas de saúde e preocupações prioritárias das mulheres Ashaninka; e 2. usar o conhecimento obtido para desenvolver e implementar projetos e iniciativas locais destinados a melhorar a saúde reprodutiva da mulher. Estrutura do workshop Um total de 107 mulheres, de 12 a 55 anos de idade, de quatro comunidades Ashaninka (Cutivireni, Camantavishi, Quempiri e Anexo Yotayo) participaram de um workshop de pesquisa de dois dias. Inicialmente, as participantes reconstituíram as histórias de sua vida pessoal para adquirir conhecimento dos ciclos de vida reprodutiva e das identidades de gênero. O intercâmbio de informações permitira às dirigentes líderes do workshop determinar como as participantes entendiam conceitos mais amplos, como saúde, doença e bem-estar. Para determinar as necessidades de saúde mais prementes da mulher, as dirigentes do workshop apresentaram projeções com ilustrações de problemas relacionados com a saúde (por exemplo, gravidez precoce, hemorragia e infecções vaginais) e pediram às participantes para priorizá-los por voto. Usando uma “árvore de causas e efeitos”, as dirigentes do workshop determinaram a profundidade do conhecimento das mulheres sobre essas questões: suas causas, conseqüências e soluções potenciais, bem como os recursos de que dispunham para abordá-las. Resumo dos resultados Os Ashaninka entendem o bem-estar como a manutenção do equilíbrio entre a comunidade e seu entorno, englobando o relacionamento do indivíduo com os membros da família, a comunidade e o ambiente natural. As doenças são vistas como manifestações físicas de uma quebra das forças espirituais e sobrenaturais que mantêm esse equilíbrio. A recuperação da doença não é considerada somente como um fim em si, mas também como um meio de restabelecer esse equilíbrio. As fases do ciclo reprodutivo da vida da mulher baseiam-se em ritual e mito, atribuindo-se grande importância à transição da infância para a vida adulta da jovem. Os Ashaninka marcam essa transição com uma série de ritos de iniciação, que reconhecem não somente as mudanças físicas da mulher, mas também a expectativa de que ela, a partir desse momento, assuma um novo conjunto de papéis e responsabilidades na comunidade. A idade média do casamento para as mulheres varia de 15 a 19 anos, mas não é incomum meninas de apenas 12 anos se casarem logo em seguida ao primeiro ciclo menstrual. Considerando-se que muitos dos problemas de saúde identificados pelas mulheres Ashaninka resultam da atividade sexual precoce e que 48% da população Ashaninka têm menos de 15 anos de idade, é clara a necessidade de que os adolescentes sejam educados sobre os temas inter-relacionados de saúde, sexualidade e gênero. Quando solicitadas a identificar suas preocupações de saúde mais prementes, as mulheres mencionaram o casamento e a gravidez precoces, a violência sexual (inclusive o estupro marital), o número elevado de filhos e dores internas e hemorragia. Entre os Ashaninka, a sexualidade da mulher é entendida em função das necessidades e expectativas dos homens. As mulheres “comprazem” aos homens e dão-lhes filhos por medo de serem abandonadas se não o fizerem. As mulheres acham que o número desejado de filhos é de 4 ou 5, mas, dadas as dificuldades associadas à anticoncepção e o desejo dos homens de terem famílias numerosas, o número médio de filhos por mulher é de 7 ou 8. As mulheres reconhecem que os filhos constituem uma força de trabalho extravaliosa para a família e a comunidade, mas também reconhecem que o fato de gerarem tantos filhos não lhes permite um padrão adequado de saúde e nutrição dentro da família. Elas indicam ainda que a freqüência da gravidez e a criação de filhos aceleram a deterioração de sua própria saúde. A violência contra a mulher é tanto física como psicológica, sendo um subproduto do desequilíbrio do poder entre homem e mulher no casamento. Os homens decidem quantos filhos as mulheres terão e com freqüência as obrigam a manterem relações sexuais ou as acusam de infidelidade se resistem a suas investidas sexuais. As mulheres internalizam esse comportamento como legítimo devido a seu papel de subordinação na estrutura social das comunidades. Embora as mulheres tenham acesso a uma ampla variedade de anticoncepcionais modernos, elas os evitam, temendo efeitos adversos para a saúde e optando pelo uso dos métodos tradicionais de anticoncepção baseados em ervas e plantas medicinais. A comunidade sofre de uma significativa falta de informações sobre os diversos métodos anticoncepcionais disponíveis, efeitos colaterais e uso apropriado. As mulheres só usam o sistema de saúde pública como último recurso, sobretudo porque não estão acostumadas a ser examinadas e, com freqüência, se sentem envergonhadas. Outros motivos incluem o idioma e barreiras culturais com o pessoal médico local, em sua maioria de fala espanhola e do sexo masculino, além do alto custo dos remédios receitados. Ações futuras Essas conclusões indicam a clara necessidade de investimento na saúde da mulher Ashaninka nos níveis comunitário e político e a IWHC está apoiando programas e iniciativas preliminares elaborados pela ACPC em resposta a essa necessidade. Como um primeiro passo, as mulheres de comunidades que falam Ashaninka e espanhol serão treinadas para serem promotoras da saúde sexual e reprodutiva e para planejar e executar projetos e iniciativas locais em pequena escala. Tendo como base as aldeias Ashaninka e um profundo conhecimento das necessidades de saúde e preocupações de suas comunidades, essas promotoras da saúde ajudarão a preencher as lacunas lingüísticas e culturais entre as mulheres Ashaninka e os prestadores de serviços de saúde locais, na maioria de língua espanhola e do sexo masculino. Elas também estarão na posição ideal de defender as mulheres Ashaninka no nível da política local. Para aumentar a conscientização das perspectivas da mulher indígena quanto às suas necessidades em matéria de saúde sexual e reprodutiva, a ACPC compartilhará as conclusões da sua pesquisa com os profissionais da área de saúde e as autoridades locais. A ACPC espera que essa crescente conscientização, combinada com a pressão das promotoras Ashaninka de saúde, ajude criar a vontade política necessária entre as autoridades para a elaboração de programas e políticas sensíveis ao gênero e à cultura e moldados pelas perspectivas das próprias mulheres sobre sua saúde. Recursos relacionados>>
Versão em espanhol do Resumo Executivo
Relatório completo da ACPC (em espanhol) Links relacionados>>
Para conhecer melhor o trabalho da ACPC com os Ashaninka, visite http://www.geocities.com/acpcweb/desde.htm.
Para conhecer melhor a ACPC, visite seu site (em espanhol). |