Cláudia Vasconcelos Entrevista
20 anos de idade
Assessora de Projetos, Grupo Curumim
Brasil

>>Disponível em Word e PDF

Cláudia Vasconcelos, de 20 anos de idade, trabalha como educadora de colegas com o  Grupo Curumim, organização feminista sediada na cidade de Recife, no Nordeste do Brasil. Nascida e criada em Recife, Cláudia começou a trabalhar com o Grupo Curumim com 13 anos de idade quando participava do programa da organização para adolescentes locais, estruturado para criar auto-estima, proporcionar informação vital sobre saúde sexual e reprodutiva e oferecer oportunidades para os jovens participarem da formulação de políticas de saúde locais. Hoje Cláudia trabalha com jovens no projeto Cunhatã em tempo parcial e como estudante do ensino de segundo grau em tempo integral. A International Women's Health Coalition (IWHC) vem apoiando o Grupo Curumin desde 1994, atuando como principal patrocinador do projeto Cunhatã desde seu início em 2001.

Coalizão Internacional pela Saúde das Mulheres (IWHC): Qual sua primeria recordacão, quando menina, de uma situacão que você foi pessoalmente afectada/prejudicada peal questão de inequalidade de género ou por falta de direitos para meninas e mulheres?

Cláudia Vasconcelos:
Eu nunca tive um momento feliz na minha infância - todas as minhas memórias são de violência. Eu cresci num ambiente onde minha mãe apanhava do meu pai. Durante minha infância, eu nunca entendi por que aquelas coisas estavam acontecendo. Eu chorava, tinha medo. Eu achava que coisas assim aconteciam não apenas na minha casa, mas na casa de todo o mundo. Depois que cresci, eu percebi que não era assim - o que me deixou ainda mais triste, porque eu me perguntava por que isso tinha que acontecer com a minha mãe.

Talvez, para mim, crescer num ambiente assim fortaleceu meu senso de luta hoje. Quando eu via minha mãe apanhando, eu não podia sentir a dor que ela sentia, mas eu sentia dor. E hoje eu tenho uma visão mais ampla, porque entendo a realidade de uma mulher que está sendo vitimizada mas que não pode fazer nada a respeito. Eu vivi isso em casa. Sei que muitas crianças como eu estão crescendo na mesma situação, e quero mudar isso.

IWHC: Quais são os maiores desafios enfrentados por mulheres e jovens no Brasil hoje?

CV:
Problemas têm muitos... eu vou puxar também para esse lado do acesso, porque quando a gente trabalha com jovens, pessoas da nossa idade, elas relatam muito isso... que não vão no posto porque a vizinha trabalha lá, vai contar para a mãe, que não vão pegar camisinha porque a mulher que trabalha lá vai perguntar: "quantos anos você tem? Porque é que você quer uma camisinha?", então elas relatam muito isso.

Tem também o problema da violência sexual contra crianças e adolescentes. Recentemente eu fiz um trabalho por fora, no carnaval, uma pesquisa sobre violência contra a mulher na delegacia da mulher de Recife. E eu vi mulheres chegando lá com casos de que suas filhas de 2 ou 3 anos estavam sendo violentadas pelos padrastos, pelos pais, então essa é uma coisa muito freqüente.

Falando de jovem, tem uma coisa que a gente enfrenta na nossa realidade aqui de dentro e que as pessoas relatam muito, que é o desemprego. Até essa semana saiu na capa do jornal que o emprego é um desafio para os jovens, uma manchete com letras enormes num jornal local de grande circulação. Então tem essa coisa de emprego que preocupa muito a juventude, pela cobrança... por um lado cobra mas por outro não dá emprego porque não tem experiência, não tem isso, não tem aquilo. Mas não tem justamente porque o sistema não dá espaço para que tenha. Então a maioria dos empregos que mulheres, jovens e negras, que têm, são empregos em loja, vendendo coisas, nunca são empregos de mais destaque, que ganhe melhor, que dê para bancar uma faculdade, então para mim esse é um problema muito grave, a falta de acesso a educação.

A maioria dos meus amigos terminam a escola e não tem perspectiva de fazer uma faculdade... pensam, ah, não vou passar mesmo, é muito concorrido. E a gente diz: "mas tenta, estuda um pouquinho, vamos nos esforçar," mas é difícil porque a gente vem de escola pública, é difícil incentivar uma pessoa que não tem expectativa. Então isso é uma coisa que preocupa muito os jovens e que me deixa muito preocupada como jovem também.

E a violação, a violência... a violação dos direitos na escola, na tevê, em todos os lugares... em todos os cantos a gente é violada, como mulher, como jovem, como negra.

IWHC: Porque o trabalho do Curumim, do IWHC, da coalition, é tão importante? Porque é importante para você trabalhar com o Curumim?

CV: 
A coalition possibilita que o Curumim faça essas ações que eu vou dizer em seguida, que eu acho importantes. E o Curumim porque traz essas questões para que os jovens reflitam, questões que são importantes, desde muito cedo. E a gente nunca parou para pensar... a gente sempre teve ligado a uma linha de raciocínio. E o Curumim não, ele diz: tem essa linha de raciocínio e tem também essa, e tem outra e vocês vão seguir a que acharem melhor para vocês. Então é como se fosse uma mãe mais liberal, que dá todas as possibilidades para a gente. E eu acho muito importante porque fortalece, falando de mim, da Patrícia, que eu vejo que é diferente de quando a gente entrou. Quando eu entrei no curumim eu era muito tímida, não fala, não me expressava, não colocava as minhas idéias, hoje eu falo, facilito oficinas, vou para mesas de debates. Quando eu entrei eu não conhecia nada dos temas que trabalhamos aqui, não sabia nada sobre violência, sobre sexualidade, direitos e hoje eu dou oficinas sobre todos esses temas tanto para os jovens que entram no Curumim quanto para Associações, outros grupos que me convidam para dar oficinas.

Eu passei a ser referência na minha própria escola, os professores, os alunos e alunas, os meus colegas de bairro me procuram para fazer algum tipo de palestra, para tirar dividas sobre sexualidade, gravidez, prevenção das DST/AIDS, violência contra a mulher. Inclusive agora no dia 8 de março eu fui para a televisão dar entrevista e o pessoal fica todo mundo comentando, me falam: "eu vi você na televisão, e não sei o que...", então você se torna um destaque um diferencial... o pessoal pensa: "nossa você só tem 19 anos e já tem esse pensamento," então tem esse diferencial que eu acho importante e essa oportunidade que o Curimim dá.

IWHC: A outra pergunta era a importância de trabalhar no Curumim?

CV: 
A importância de trabalhar no Curimim para mim é poder... não é devolver, mas poder fazer o que o Curumim fez comigo, que é fortalecer outros jovens e passar o conhecimento que o Sula me passou, o que a Claudinha - que era outra educadora, que era enfermeira, médica - me passou, poder passar isso para outros jovens que estão chegando. Eles também chegam com uma bagagem de conhecimento muito pequena e que depois de seis meses já sabem muito mais e depois de um ano já estão passando conhecimento para outros jovens, então eu acho isso muito importante. Porque eu sempre digo, o nosso trabalho é de formiguinha mesmo, é formar esse grupo que a gente está formando, e eles formarem outros e os outros formarem outros, para quem sabe daqui a 10 ou 20 anos a gente ter uma sociedade mais igual.

IWHC: O que vocês vêm como solução de futuro na questão de saúde sexual e reprodutiva para as jovens? Se vocês forem exitosas, como é que o mundo vai ser?

CV:
Primeiro eu tenho muita expectativa no futuro, expectativa para mim... Expectativa Professional, pessoal. Primeiro se eu tiver filho eu também vou criar igual tanto menino como menina e vou tentar diminuir essas diferenças de gênero, pelo menos dentro da minha própria casa. Aí eu quero fazer jornalismo para contribuir com o movimento, para proporcionar menos violação dos direitos nos meios de comunicação. Eu tenho para mim que eu nunca vou deixar de ser militante, só quando eu morrer. Isso foi até uma coisa que a Sula disse um dia para mim: "Independentemente do que você faça, da onde você esteja, mesmo que você não estiver aqui no Curumim - porque naquele momento eu estava passando por uma situação muito difícil e eu estava em dúvida entre ficar aqui no Curumim e ir para outro lugar - então ela disse, independentemente da onde você estiver eu tenho certeza que você vai continuar lutando." isso ficou muito marcado para mim. E é verdade. Independentemente da onde eu esteja eu vou continuar lutando para que as desigualdades diminuam, e é sempre isso que a gente quer.

IWHC: Cláudia, esse é o seu intento pessoal. Mas se tudo der certo, como é que o mundo vai ser?

CV:
Ah, o mundo vai ser maravilhoso,  porque não vai ter violação de direitos, as pessoas vão ser respeitadas independentemente da cor delas, da sua orientação sexual, do que elas escolham para as suas vidas. Então vai ser uma sociedade que vai ter menos violência, porque eu acredito que a violência vem dessas desigualdades. Uma população mais educada, que sabe dos seus direitos e exige da sociedade, que exige dos órgãos responsáveis que eles cumpram a sua função, eles vão receber educação de qualidade, saúde de qualidade. É isso que a gente espera e é isso que eu espero um dia ver. E eu fico muito feliz em ver coisas que trazem melhoras, como a Lei Maria da Penha. Foi um avanço e eu participei disso, um momento histórico e eu participei dessa luta. Eu acredito que no futuro eu vou estar velhinha também vibrando por outras conquistas.
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