Marisa Viana-Aitchison Entrevista
26 anos de idade
Assistente de Programas para a África e a América Latina e da Coalizão Internacional pela Saúde das Mulheres (IWHC)
Brasil

>>Disponível em Word e PDF

Marisa se uniu à IWHC em janeiro de 2006. Antes disso, ela trabalhou no Bildner Center para Estudos do Hemisfério Ocidental em Nova Iorque, onde era responsável pela pesquisa e organização de conferências sobre parcerias público-privadas e reforma estatal no Brasil. Antes de se mudar para Nova Iorque, ela trabalhou como Assistente administrativa na Anistia Internacional em Massachusetts e estagiou em ONGs ambientais no Brasil. Em 2007, ela participou do treinamento da Advocacia na Prática na Cidade de Nova Iorque, antes da 51a Sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher e trabalhou com um grupo de jovens trainees para defender efetivamente a saúde e os direitos de mulheres e meninas. De nacionalidade brasileira, Marisa fala português e espanhol e tem bacharelado em Relações Internacionais e Justiça Social Ambiental, com foco na América Latina.

Coalizão Internacional pela Saúde das Mulheres (IWHC): Conte-nos a história de sua vida.

Marisa Viana-Aitchison: Eu cresci em Arara, uma cidade pequena na Amazônia e uma das regiões mais pobres do Brasil. Eu nasci em uma família muito grande, tenho cinco irmãos e três irmãs.

Vivi nesta cidade até nove ou dez anos. Lá, não havia escolas, então por iniciativa de meus pais e de outros moradores, uma escola informal foi construída.  Eu freqüentei essa escola juntamente com meus irmãos até a idade de nove anos. Nessa época, fui morar com minha irmão mais velha em Manaus—a capital do Amazonas, onde a maioria das crianças da cidade eram enviadas para viver com parentes, na esperança de ter chance de receber uma educação regular e consistente.   Eu vivi em Manaus até completer 16 anos e, em seguida, vim para os Estados Unidos com minha irmã e seu marido e tenho vivido aqui desde então.

Concluí o último ano do segundo grau nos Estados Unidos e ingressei na universidade em Boston.  Portanto, o início da minha educação não foi promissor, as chances de eu chegar à universidade eram pequenas, principalmente de cursar uma universidade nos EUA.  A maioria dos meus amigos da cidade nem chegaram a cursar a escola secundária. À medida que eu crescia, eu tinha receio de que a mudança, a viagem e a escola me separariam de minhas raízes e me desvinculariam da família e dos meus amigos de infância.  Mas isto nunca ocorreu:  Minha educação informal anterior (que às vezes falhava) e o caminho para adquirir uma educação melhor só causaram impacto positivo em minha vida. Na transição da infância para a adolescência, aprendi a apreciar o valor inegável da educação.

Casei logo depois de minha primeira viagem aos EUA, aos 17 anos. Eu sabia que era muito cedo para casar, mas era isso que eu desejava. Faço essa afirmação com cautela porque o casamento forçado ou a gravidez precoce é uma experiência aterradora para muitas meninas e mulheres. Eu entrei no casamento completamente ciente das circunstâncias e foi com meu total consentimento que isso ocorreu.  Infelizmente, isso não ocorre com muitas jovens em todo o mundo.

Eu permaneci casada por cinco anos. Muitos colegas de turma ficavam chocados em saber que eu era casada. Lamentavelmente, meu marido faleceu três anos depois. Ele era soropositivo para HIV. Ele lutou contra a doença por muito tempo.  Ele usava as medicações anti-retrovirais (ARVs), seguindo o tratamento apropriado, ao qual muitas pessoas com HIV/AIDS não têm acesso.  Mas, por fim, ele ficou doente. Fiquei triste de constatar que havia tanto preconceito com relação a meu marido, a mim, a nossa situação e a de tantos outros.  Observar e vivenciar o impacto que o HIV/AIDS exercia sobre ele fez com que eu me empenhasse ainda mais em ajudar as pessoas a ter acesso a uma educação sexual abrangente, a conscientizar as pessoas sobre a prevenção contra o HIV, o tratamento e os cuidados necessários, como também a ajudar os contaminados pela doença a perceber que têm os mesmos direitos de todo mundo, pois não devem se envergonhar de sua condição ou ter medo de exigir o que for necessário.

Isso é triste, mas, ao mesmo tempo, é o que me inspira a falar do assunto. Eu nunca pensei em mentir sobre a causa de sua morte, porque não quero contribuir com o estigma e a discriminação vivenciada pelas pessoas que convivem com o HIV/AIDS: a idéia de que se alguém é soropositivo é porque fez algo de mal ou porque não é decente.  Eu vi o sofrimento do meu marido. Senti o impacto que o HIV/AIDS exerce sobre os que cuidam de seus entes queridos e não desejo isso para ninguém. Conseqüentemente, fiquei muito envolvida e dedicada ao trabalho em prol da justiça social e dos direitos humanos, principalmente os direitos das mulheres. Quero contribuir o máximo possível.

IWHC: Qual é sua primeira memória quando menina ou jovem de uma situação em que testemunhou ou foi afetada por desigualdades entre os sexos ou pela ausência de direitos para meninas e mulheres?

MVA: À medida que eu crescia, podia fazer as mesmas coisas que minhas irmãs, mas nunca as mesmas coisas que meus irmãos faziam.  Meus irmãos tinham liberdade para fazer certas coisas sem a supervisão dos pais, mas minhas irmãs e eu tínhamos uma liberdade muito mais restrita porque meus pais achavam que tinham que nos proteger mais.  Eu lembro que meus irmãos podiam ir a partidas de futebol, mas eu sempre ouvia que tinha que ficar em casa e brincar com minhas amigas.

Pude perceber precocemente que teria que me impor, se desejasse ter o mesmo grau de liberdade que meus irmãos. Eu me tornei independente muito cedo e, em vez de pedir para fazer determinadas coisas, eu comunicava o que faria. Assim, fiz meus pais entenderem que eu estava ciente dos perigos que eles conheciam, mas que poderia me proteger.

IWHC: Como a experiência de crescer em sua cidade era diferente para meninas e meninos, fossem eles crianças ou adolescentes? As atividades, interesses e percepções do futuro diferem para meninas e meninos?

MVA: Na escola da cidade, onde tínhamos uma professora para 30 alunos, as professoras priorizavam os meninos. Se a turma era muito grande, as professoras aprovavam os meninos mais velhos para a próxima série e as meninas mais jovens só passavam adiante no ano seguinte. Os meninos sempre tinham a oportunidade de passar de ano primeiro.

IWHC: Durante o seu crescimento, você aprendeu ou conversou sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos?

MVA: Não em minha casa. Talvez, se meus pais conhecessem algo sobre saúde e direitos reprodutivos e planejamento familiar, eles não tivessem nove filhos. Então, eles provavelmente teriam conversado mais sobre isso!

O governo começou a fornecer serviços de planejamento familiar no vilarejo onde cresci em 1997. Uma vez por mês, o sistema público de saúde envia uma embarcação equipada pelo rio, para ir de casa em casa, fornecendo contraceptivos e cuidado pré-natal, como também outros seriviços de saúde. Mas, às vezes, a embarcação ficava vários meses sem vir e as pessoas permaneciam sem contraceptivos. Por fim, o governo construiu um posto de saúde no vilarejo, mas, às vezes não há um profissinal da saúde no posto. Havia caixas de preservativos e outros contraceptivos disponíveis no posto de saúde, mas os moradores não podiam ter acesso a esse material.

IWHC: Como você se envolveu na luta pelos direitos de mulheres e jovens?  

MVA: Desde bem jovem, estive interessada e envolvida com justiça ambiental e social. Sendo natural do Amazonas, sempre estive preocupada com a poluição de rios e o desmatamento e tive um grande interesse nas lutas dos indígenas do Brasil.

Desde criança, presenciei as dificuldades enfrentadas pelas mulheres do vilarejo, inclusive por minha mãe. Ela sempre quis ter certeza de que eu e meus irmãos tivéssemos mais oportunidades do que ela teve.  Quando eu era adolescente, minhas amigas estavam grávidas porque desconheciam os métodos de contracepção. Eu lembro de achar que suas vidas eram baseadas no que elas não podiam fazer. Dentre outras coisas, elas não podiam ir à escola porque tinham filhos. Elas eram crianças criando outras crianças. Mesmo agora, quando volto para visitar meus pais, vejo meninas grávidas que conheci quando ainda bebês. Geralmente, elas não têm mais que 14 ou 15 anos de idade.  Eu tenho sobrinhas adolescentes e sempre tentei ser uma “tia legal”, com a qual eles podem contar para conversar sobre qualquer coisa; é importante que as meninas tenham a quem recorrer para obter informações vitais sobre sua sexualidade, à medida que crescem.

Minha primeira experiência defendendo os direitos de mulheres e jovens foi quando freqüentei a escola em Manaus. Eu tinha uma professora muito boa, que era voluntária em uma associação de mães que sofriam violência doméstica.  Um dia, eu pedi para me unir a ela e me tornei voluntária também.  A maioria das mulheres vinha ao centro comunitário para se recuperar de relações abusivas e ganhar forças para deixar seus parceiros. Eu lembro de pensar: “Isso não é justo.  Seu marido bebeu, veio para casa e ficou aborrecido porque a casa não estava em ordem e você sofre por isso.”  Posteriormente, quando eu estava cursando a faculdade em Boston, me voluntariei de novo para trabalhar em uma organização para defesa de mulheres espancadas e me uni a uma organização feminista em minha universidade.  Lá, aprendi que a autonomia das mulheres é essencial para a melhoria da sociedade e para criar um ciclo de mudanças positivo.

IWHC: O que a inspirou a começar a trabalhar na IWHC?

MVA: Na faculdade, me especializei em Relações Internacionais e Justiça Social Ambiental com complementação em Estudos da Mulher. Eu li uma publicação da IWHC de um dos cursos de Estudos da Mulher que realizei. Me inspirei na missão da IWHC de proteger os direitos e saúde de meninas e mulheres em todo o mundo e quando tive a oportunidade de participar da organização fiquei maravilhada.

Eu tinha pensado em trabalhar na luta pelos direitos dos indígenas e pela justiça social ambiental, mas, depois, percebi que tinha grande interesse e estava envolvida com a defesa dos direitos e a saúde global de mulheres e meninas.  A IWHC é certamente o lugar correto para fazê-lo.

IWHC: Como você sente que a IWHC modificou a vida dos jovens em um sentido amplo e em casos específicos?

MVA: Meu tempo de atuação na IWHC tem me ensinado que o importante não é falar pelos jovens.  Todos temos voz. Precisamos, sim, ouvir seus clamores e encorajá-los a lutar por seus direitos.

A IWHC investiu muito na criação de um espaço onde os jovens possam ter autonomia, por meio da construção de capacidades.   Eu trabalho para os programas da IWHC para a América Latina e a África. Através de um programa da IWHC chamado “Advocacia na Prática,” fornecemos treinamentos de advocacia para jovens e líderes emergentes dessas regiões, como também de países da Ásia. Em seguida, os reunimos em grandes fóruns internacionais, tais como o NU, onde eles podem defender seus direitos, aumentar sua participação no processo de tomada de decisões e de redes.

IWHC: Em sua opinião, quais são os desafios principais que os jovens enfrentam no Brasil atualmente?  E quais são as grandes oportunidades?

MVA: Fazer parte de uma organização internacional que trabalha em tantos locais me permitiu aprender que muitas sociedades têm os mesmos problemas inerentes. Os jovens de todo o mundo enfrentam a falta de autonomia e de educação adequada. No Brasil, o governo implantou um sistema educacional decente, mas como ocorre em diversas sociedades, nem todos têm acesso a este.  Muitos jovens apresentam a necessidade imediata de trabalhar precocemente e a escola é deixada em segundo plano.

O acesso aos serviços de saúde é outro problema para os jovens. Pode ser que minha perspectiva advenha principalmente da minha infância no Brasil rural, mas, geralmente, os jovens não têm acesso aos serviços de saúde porque não têm meios de chegar a um hospital regional em um centro urbano. A confidencialidade é outra questão para os jovens porque, em cidades pequenas, as pessoas se conhecem e falam uns dos outros.  Muitas vezes, os profissionais de saúde julgam os jovens, especialmente as meninas, quando estes questionam sobre contracepção, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) ou aborto. O governo brasileiro fornece preservativos e exames de HIV gratuitos, mas precisa investir mais no treinamento de profissionais de saúde para a orientação de jovens que desejam fazer um exame de HIV ou saber como se proteger de uma doença sexualmente transmissível ou, ainda, que precisam obter informações sobre contracepção e aborto. O governo precisa investir no treinamento de profissionais de saúde para capacitá-los a fornecer informações precisas sobre essas questões, sem fazer premissas discriminatórias.

Outro desafio enfrentado pelos jovens e mulheres de várias regiões é eliminar o preconceito de sexo em casa, na escola e no local de trabalho.  Ele existe e precisa ser solucionado com mais consistência.

No que diz respeito às grandes oportunidades, acho que os jovens devem começar a aproveitar as aberturas para maior participação destes.  Sinto que já houve mudanças importantes no reconhecimento da necessidade de aumentar a participação dos jovens. As pessoas já perceberam que os jovens têm importância e que suas opiniões e preocupações precisam ser consideradas.

IWHC: Para você, quais são as questões mais importantes a serem tratadas pelos formuladores de programas e políticas para promover e proteger a saúde e os direitos dos jovens – principalmente das jovens?

MVA: Saúde e direitos sexuais e reprodutivos (SRHR) — as jovens, em particular, são mais vulneráveis ao HIV/AIDS e a outras doenças sexualmente transmissíveis; necessidade de educação sexual e de um sistema legal acessível e abrangente, onde as mulheres e jovens possam ser levadas a sério.

IWHC: Você tem exemplos positivos de sua experiência pessoal e profissional nos quais o diálogo e os programas alcançaram a participação ou liderança dos jovens?  O que foi realmente eficaz nestes exemplos específicos?

MVA: Eu era uma dos 15 participantes na sessão do treinamento Advocacia na Prática organizada pela IWHC no ano passado. Dentre os outros participantes, havia membros de nossas organizações parceiras na América Latina e Ásia.   Nesse treinamento, falamos de nossas expectativas para a conferência das Nações Unidas e praticamos as habilidades de advocacia. Em seguida, prosseguimos com a advocacia na Comissão das Nações Unidas para o Estatuto da Mulher. O tema do Encontro foi a violência contra as jovens, então, foi muito importante contar com a expressão dos jovens num fórum tão importante.

Cada participante contribuiu fazendo recomendações para a resolução de questões, a fim de garantir um futuro melhor para mulheres e meninas. Foi ótimo ter a oportunidade de estar envolvida em um esforço coletivo de representar as visões da IWHC e defender metas em comum. Os parceiros da IWHC na América Latina e Ásia ficaram entusiasmados, e eu também, de estar trabalhando com um grupo de pessoas tão engajadas. 

IWHC:Do que você tem mais orgulho?

MVA: Eu, pessoalmente, fico muito orgulhosa de poder falar por mim mesma e ter ciência de que tenho direitos que não podem ser infringidos. Além disso, me orgulho de ser reconhecida por minha família, amigos e colegas como um indivíduo engajado em lutar por um mundo melhor. Profissionalmente, tenho o orgulho e a humildade de poder trabalhar com e conviver com mulheres incríveis de todo o mundo.

IWHC:Quais são os seus sonhos para o futuro? Você pode descrever sua visão de um mundo melhor ou ideal?

MVA: Tenho muitos sonhos.  Para mim, um mundo melhor é um lugar onde as pessoas não sintam fome quando produzimos alimentos suficientes para todos e não morram de doenças que podem ser prevenidas e de desnutrição.  Um mundo melhor é um lugar onde o meio ambiente é respeitado e apreciado. Eu sonho com um mundo livre de sofrimento, violência, estupros, desigualdades, injustiças, doenças e opressão.

IWHC: Como você imagina seu futuro?

MVA: Definitivamente, eu me vejo trabalhando em prol da saúde e dos direitos das mulheres. Quero dedicar mais tempo aos esforços para aumentar o acesso à prevenção e ao tratamento de HIV/AIDS e para promover maior participação das pessoas responsáveis pelos processos de tomada de decisões que concernem o HIV/AIDS.  Isso é algo com o qual eu estou comprometida pessoalmente, mas também se trata de uma necessidade.

Eu espero voltar à escola para estudar Saúde Pública no próximo ano.  Por fim, quero retornar ao Brasil e trabalhar nas raízes da questão, nas regiões norte e nordeste do Brasil, com foco nos jovens.  E, talvez, um dia, serei presidente do Brasil ou Secretária Geral das Nações Unidas.  Isso é um sonho…
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