Evre Kaynak Entrevista
28 anos
Coordenadora de Programas Nacionais, Women for Women's Human Rights-New Ways (Mulheres pelos Direitos Humanos - Novas Formas - WWHR)
Turquia

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Evre Kaynak, da Turquia, tem o bacharelado em Economia pela Instanbul University e dois mestrados em Economia do Desenvolvimento e Lei de Direitos Humanos pela Marmara University e Bilgi University. Desde 2005 ela é Coordenadora Nacional de Programas da Women for Women's Human Rights (WWHR) - New Ways. Ela atualmente coordena o seu Programa Nacional e o Programa de Treinamento em Direitos Humanos para Mulheres, desenvolvido pela WWHR-New Ways em 1995 e implementado em centros comunitários em 36 diferentes províncias em toda a Turquia.

Evre, que conta com vasta experiência como treinadora e defensora de direitos humanos em várias organizações nacionais e internacionais de direitos humanos, preparou e editou várias publicações e materiais informativos sobre direitos humanos, incluindo Democracy and Our Rights (2004) e Purple Newsletter, A Networking Bulletin for Women's Human Rights (2006-2007). Ela também trabalha como treinadora autônoma em educação em direitos humanos e igualdade de gênero e como auditora autônoma de cumprimento de obrigações sociais.

IWHC: Como você começou a participar da luta pelos direitos das mulheres e dos jovens?

Evre Kaynak:
Desde a escola secundária venho trabalhando por mim mesma no combate a coisas como violência contra moças estudantes e discriminação contra minorias. Depois de meus estudos universitários em Istanbul, a principal diferença foi o fato de eu trabalhar como voluntária com a Human Rights Association, Seção de Istanbul. Em minha opinião, os direitos humanos são relevantes a todas as dimensões de nossa vida. Eu não considero a minha luta como para uma determinada pessoa, mas uma luta com as mulheres e jovens como meu como uma prática diária.

IWHC: Você pode descrever o que faz na Women for Women's Human Rights-New Ways (WWHR)? O que a inspirou a começar a trabalhar na WWHR?

EK:
Eu trabalho como Coordenadora de Programas da WWHR, uma das principais organização não-governamentais (ONGs) e atualmente a secretaria de uma rede internacional, a Coalition for Sexual and Bodily Rights in Muslim Societies (Coalizão para os Direitos Sexuais e Corporais nas Sociedades Mulçumanas). A WWHR é tanto uma organização da comunidade feminista como altamente profissional, qualidades raramente encontradas ou combinadas nas ONGs sediadas na Turquia. O trabalho da WWHR tem sido uma inspiração para mim, tanto em método como em conteúdo.

IWHC: Na sua opinião, como a WWHR mudou a vida das mulheres de modo tanto específico como geral? Quais são as prioridades do seu futuro trabalho com grupos mais jovens?

EK:
Documentamos e ilustramos, mediante avaliações feitas por revisores independentes, como a WWHR mudou a vida das mulheres na Turquia por meio do Programa de Informação sobre Direitos Humanos para Mulheres, o qual está em andamento há 12 anos. Ao conhecer essas mulheres, além das avaliações, eu senti seu empoderamento e autoconfiança refletidos em suas atitudes.

Como resultado de lobby em âmbito nacional, regional e internacional, bem como de iniciativas de defesa de direitos, a WWHR também conseguiu modificar várias leis na Turquia no intuito de promover a igualdade de gênero. Como mulher e vivendo na Turquia, eu não preciso monitorar formalmente como isso está mudando a vida das mulheres, porque eu estou vivendo pessoalmente essa situação. Muitos de meus direitos sexuais, corporais, econômicos, políticos e civis foram garantidos pelo Estado graças aos esforços do movimento feminista por meio de iniciativa e coordenação da WWHR.

Por exemplo, esforços para mudar o Código Penal Turco levaram a mais de 30 emendas pioneiras para a proteção e promoção dos direitos sexuais e corporais da mulher. Eu fui criada acreditando que, ao me abster da sexualidade e proteger minha virgindade até o casamento, eu estaria protegendo a honra e respeito próprio e de minha família. Todas essas regras impostas a mim, sem qualquer explicação, resultaram emu ma autoconscientização muito rígida de meu corpo e de minha sexualidade  e uma percepção de que meu corpo pertencia à sociedade ou à minha família. Todas essas normas e regulamentos eram apoiadas pelo antigo Código Penal. Os crimes sexuais contra a mulher enquadravam-se no capítulo "Crimes contra a Sociedade". O novo Código Penal transformou essa mentalidade e os crimes sexuais contra a mulher pertencem agora ao capítulo "Crime contra Indivíduos". Hoje, eu mesma e outras jovens que desafiam as normas e tradições da sociedade podem referir-se a esses documentos legais e falar alto e claro: "Meu corpo é meu e é garantido pelas leis!"

No trabalho futuro, os membros da equipe da WWHR, incluindo a mim mesma, definitivamente vão atribuir maior prioridade às mulheres jovens, especialmente no tocante aos direitos sexuais e corporais.

IWHC: O que você considera como os principais desafios que os jovens enfrentam hoje na Turquia? E quais são as maiores oportunidades?

EK:
O principal desafio que os jovens enfrentam hoje na Turquia é o alto índice de despolitização. Os efeitos da intervenção militar de 1980 ainda afetam a vida política e civil da população, especialmente dos jovens. A intervenção militar proibiu e criminalizou todos os tipos de assembléia democrática, inclusive partidos políticos, sindicatos e associações civis. Muitos foram torturados e mortos. Minha geração cresceu sob o medo de participar de qualquer atividade política, porque muitas leis e instituições que entraram em vigor depois da intervenção militar permaneceram por muitos anos. Agumas ainda estão.  Depois da intervenção militar, o movimento feminino foi a primeira iniciativa civil a ser organizada e expressar-se nas ruas contra a violência doméstica.

O fundamentalismo e nacionalismo nascentes também moldaram estrategicamente a vida dos jovens por meio da educação (formal, informal e não-formal), cultura e política. As forças conservadoras e repressiva que dirigiam o país recentemente mostraram a sua face assassinando Hrant Ding, jornalista armênio que vivia na Turquia como cidadão turco. Essas forças se estão organizando em níveis diferentes para impedir as pessoas de pensarem e viverem livremente. E são apoiadas pelas forças militaristas e fundamentalistas em todo o mundo: forças que atacam o Oriente Médio, matando milhares de pessoas inocentes, sentenciando mulheres à morte no Iraque, aprisionando mulheres no Irã...

As maiores oportunidades para organizar e agir na Turquia são proporcionadas pelas ONGs que desenvolvem e implementam projetos no campo dos direitos humanos, inclusão social, direitos humanos da mulher, meio ambiente e mobilidade.

IWHC: Na sua opinião, quais são as questões mais importantes para os programadores e formuladores de políticas abordarem a fim de promover e proteger a saúde e os direitos do jovens - especialmente das meninas?

EK:
Os programadores e formuladores de políticas deveriam primeiro parar de ignorar a existência dos jovens, especialmente das meninas, - seu poder, suas expectativas, sua integridade física e espiritual e sua autonomia. O treinamento formal e não-formal no desenvolvimento de aptidões e direitos humanos deve ser desenvolvido e implementado com a participação dos jovens, respeitando suas necessidades e expectativas. Os jovens devem participar dos processos de tomada de decisões em questões que os afetam. A erradicação da pobreza também reveste grande importância.

IWHC: Como os ativistas, formuladores de políticas e grupos diferentes trabalham em conjunto para atrair os jovens?

EK:
Os programas e projetos devem ser desenvolvidos para melhorar os conhecimentos, aptidões e atitudes dos jovens sobre cidadania ativa, direitos humanos e participação política, de forma que possam envolver-se politicamente. Com outras palavras, a principal questão neste ponto não é atrair os jovens como um tema ou questão, mas atraí-los como indivíduos ativos que contribuam para a melhoria das sociedades com energia e criatividade. 

IWHC: Você tem exemplos positives tirados de sua experiência profissional ou pessoal nos quais o diálogo e a programação tenham conseguido participação ou liderança expressiva dos jovens?  Você poderia indicar a eficácia desses exemplos específicos?

EK:
Eu tenho experiência direta no treinamento de mais de 200 jovens em direitos humanos por meio do projeto "Nossos Diretos e Democracia", dirigido pela Community Volunteers Foundation de 2004 a 2007.  As jovens participantes do projeto eram estudantes universitários de 18 a 24 anos de idade.  As sessões de treinamento foram realizadas em 14 cidades diferentes em toda a Turquia, inclusive no Leste e Sudeste da Turquia. Os jovens que participaram do treinamento provinham de áreas urbanas e rurais da Turquia e todos tinham grande disposição e interesse no treinamento. Cerca da metade dos participantes tornaram-se mais ativos nas respectivas comunidades e outros desenvolveram aptidões em liderança. A parte mais eficaz foi fazer os jovens compreenderem que os direitos humanos não são uma questão para ser tratada teoricamente, mas faz parte integral de sua vida, atividades, trabalho, relações e atitudes.

IWHC: Quais são alguns dos elementos mais importantes que você aprendeu de seu trabalho com a WWHR?

EK:
Embora eu tenha trabalhado em direitos humanos da mulher há vários anos, o elemento principal que aprendi da WWHR foi que o aprendizado é um processo contínuo e sempre há mais para conhecer, conscientizar-se e atuar.

IWHC: Quais são seus sonhos para o futuro?  Você poderia descrever sua visão de um ideal ou de um mundo melhor?

EK:
U mundo democrático e pacífico, baseado no respeito aos direitos humanos e à igualdade de gênero.

IWHC: Como você conheceu a IWHC?

EK:
Por meio da cooperação entre a WWHR e a IWHC. A IWHC tem proporcionado fundos para a WWHR desde 1998.  Atualmente apóia nosso trabalho como secretaria de uma rede de defensores da saúde e direitos sexuais em todo o Oriente Médio e Norte da África:  Coalition for Sexual and Bodily Rights in Muslim Societies (Coalizão para os Direitos Sexuais e Corporais nas Sociedades Mulçumanas). Esse apoio é especialmente fundamental, uma vez que é um verdadeiro desafio trabalhar nessas questões nesta região.
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