Fatima Haider Entrevista
27 anos
Gerente do Programa, Aahung
Paquistão

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Fatima Haider é a gerente de programa em Aahung, uma organização sem fins lucrativos que ajuda a promover e a proteger saúde e os direitos sexuais no Paquistão. Ela concluiu o bacharelado em biologia nas universidades Hobart e William Smith, Geneva, NY (2002).

Fatima entrou para a Aahung como Coordenadora de Pesquisa, Monitoramento e Avaliação em 2003. Ela foi promovida a Gerente de Programa em 2004, apesar de ser o membro mais jovem da organização. Ela também trabalhou como Diretora Interina para a organização. Desde 2004, Fatima também trabalha como coordenadora para a Karachi Chapter da Rede de Saúde Reprodutiva do Paquistão.

IWHC: Como você começou a participar da luta pelos direitos das mulheres e dos jovens?

Fatima Haider:
Minha luta pelos direitos das mulheres e dos jovens começou com meu próprio compromisso pessoal de garantir para as moças as mesmas oportunidades geralmente dadas somente aos rapazes em minha sociedade.   Isso inclui ser capaz de dirigir, obter educação superior e, mais tarde, casar-se com alguém de sua própria escolha. Sempre fui terminantemente contra a discriminação de mulheres e moças no Paquistão e tenho sido uma defensora dos direitos iguais desde minha adolescência.  Contudo, só comecei a participar formalmente dessa luta quando entrei para a Aahung (a organização para a qual eu trabalho) em 2003.   

IWHC: O que inspirou você a começar a trabalhar na Aahung?

FH:
Inicialmente, eu entrei para a Aahung porque fiquei intrigado com seu mandato corajoso (isto é, promover e proteger a saúde e os direitos sexuais).  Eu estava interessada em aprender como a Aahung havia trabalhado com sucesso até agora com uma questão tão sensível e cheia de tabu sem ser banido ou preso em um ambiente paquistanês predominantemente conservador. A Aahung foi, e provavelmente ainda é, a única organização do Paquistão que aborda questões meramente relacionadas a sexo e à sexualidade. O simples fato de fazer parte dessa organização tem sido uma experiência extremamente fortalecedora.

Por exemplo, uma experiência especialmente importante é o workshop de conscientização da sexualidade que eu participei poucas semanas depois de entrar na Aahung. Foi a primeira vez que eu explorei minha própria sexualidade e questionei alguns de meus valores e crenças a cerca da sexualidade.   Foi uma experiência extremamente esclarecedora para mim. Saí do workshop muito mais consciente de mim mesma e de meus valores e descobri que eu tinha o direito de tomar decisões sobre minha vida. Desde então, não só encaro a tomada de decisões como um direito meu, mas também comecei a assumir a responsabilidade por minhas próprias decisões. 

IWHC: Como você acha que a Aahung mudou a vida das pessoas, seja em casos específicos ou de um modo geral?

FH:
Uma das principais iniciativas de minha organização é o desenvolvimento dos conhecimentos práticos de jovens de várias comunidades - incluindo o desenvolvimento da auto-estima de moças, fornecendo informações aos jovens sobre sua saúde e seus direitos e como  protegê-los, e também ensinando sobre respeito e aptidões para negociar nos relacionamentos. Descobrimos que os jovens que foram expostos ao programa são agora mais conscientes, confiantes e responsáveis.  Nas comunidades rurais, onde geralmente as moças não teriam permissão para deixar suas casas, o programa de conhecimentos práticos ajudou a integrá-las na sociedade externa - participando, entre outras coisas, de grupos de teatro ou atuando em espaço públicos. Elas estão aumentando a conscientização em suas comunidades e promovendo saúde e direitos entre seus pares e famílias.

IWHC: O que você considera como os principais desafios que os jovens enfrentam hoje no Paquistão? E quais são as maiores oportunidades?

FH:
A situação dos jovens no Paquistão varia enormemente de acordo com o sexo, as áreas rurais e urbanas e províncias.  Um dos maiores desafios para os rapazes das áreas rurais e urbanas é o sentimento de desesperança em termos de oportunidades de emprego e ascensão social.  Da mesma forma, as opções de atividades extracurriculares são muito limitadas, e assim, só resta aos jovens passar a maior parte do tempo ociosos pelas ruas e por isso se tornam mais vulneráveis a comportamentos de risco como sexo sem segurança, uso de álcool e drogas.

A mobilidade das moças, principalmente nas áreas rurais, é extremamente restrita.  Elas geralmente não têm oportunidades educacionais e têm pouco ou nenhum poder de decisão sobre suas próprias vidas.  Embora a mobilidade e o nível educacional das moças nas áreas urbanas seja um pouco melhor, de um modo geral, elas ainda não podem exercitar o direito de tomar decisões sobre suas vidas, especialmente em termos de casamento e carreira.

Alguns desafios comuns a ambos os sexos incluem a falta de vias saudáveis para interação entre rapazes e moças, e recursos limitados e inacessíveis para a aquisição de informações exatas e apropriadas à faixa etária com relação às partes e aos processos do corpo/anatomia e ao funcionamento do corpo. Também existem poucos serviços de cuidados médicos adaptados aos jovens e que atendam às suas necessidades especiais.

[Oportunidades] Como os jovens formam o coorte mais amplo da população do Paquistão, o Governo é pressionado a investir neles.  Acredito que exista uma tremenda oportunidade para os jovens aumentarem sua participação em algumas das iniciativas que o Governo e o setor privado estão tomando.  Uma dessas iniciativas é o Youth Parliament, um projeto piloto organizado pelo PILDAT (Instituto Paquistanês de Desenvolvimento e Transparência Legislativa) em colaboração com o Governo do Paquistão. Criado após a Assembléia Nacional do Paquistão, o Youth Parliament é um parlamento modelo para jovens.  A primeira sessão reuniu 60 jovens, entre 18 e 29 anos, de todo o Paquistão. Ao participar do parlamento modelo, os jovens participam do discurso político e são expostos às práticas e aos processos democráticos.  O fórum permite que os jovens expressem suas opiniões sobre questões locais, nacionais e regionais, e promove uma cultura de compreensão e tolerância para com diferentes pontos de vista.

IWHC: Na sua opinião, quais são as questões mais importantes para os programadores e formuladores de políticas abordarem a fim de promover e proteger a saúde e os direitos do jovens - especialmente das moças?

FH:
Ao desenvolver programas ou políticas relativos a jovens, é extremamente importante lembrar que deve ser dada máxima prioridade à questão da confidencialidade. Os serviços não devem ser intimidantes e os fornecedores devem criar uma atmosfera na qual os jovens que usam o serviço nunca se sintam julgados. Isso é especialmente crucial em um contexto como o do Paquistão, onde a privacidade dos jovens e seu direito aos serviços e informações de saúde costumam ser desrespeitados.

Como a mobilidade das moças é extremamente limitada, seria importante tentar criar um programa ou serviço que essas moças possam acessar em casa, por exemplo, fornecer serviços de porta em porta ou desenvolver centros comunitários onde seja fácil e não-intimidante para as moças se reunirem.

IWHC: Como ativistas, formuladores de políticas e grupos diferentes podem trabalhar juntos para incluir os jovens na mesa de debates?

FH:
Primeiro, os ativistas e os formuladores de políticas devem estar dispostos a respeitar e aceitar as visões e opiniões dos jovens sem julgá-los.  As opiniões e visões dos jovens são geralmente ignoradas devido a evidente "falta de experiência" ou conhecimento de jovens.  Para encorajar os jovens a apresentar suas preocupações, é necessário criar uma atmosfera onde eles se sintam seguros e confortáveis para iniciar um diálogo significativo. Eles precisam estar seguros de que sua opinião e necessidades são importantes e que receberão prioridade.

IWHC: Você tem exemplos positivos de sua experiência pessoal ou profissional nos quais o diálogo e a programação obtiveram a participação ou a liderança significativa dos jovens?  O que demonstrou ser eficaz com relação a esses exemplos em particular?

FH:
Só recentemente, o Paquistão começou a reconhecer os jovens (adolescentes) como um grupo de indivíduos separado, por isso é difícil encontrar exemplos em que os jovens tenham participado de forma significativa em um nível político.   

IWHC: Quais são seus sonhos para o futuro? Você pode descrever sua visão de um mundo ideal ou melhor?

FH:
Um lugar onde

  • mulheres e crianças sejam tratadas com respeito e dignidade e não sejam  molestadas;
  • o sistema educacional permita que os jovens tomem decisões positivas sobre suas vidas;
  • a diversidade de valores e opiniões seja respeitada e a religião não seja uma imposição;
  • todos tenham o direito e a capacidade de decidir sobre seu(s) parceiro(s) sexual(is);
  • ninguém seja coagido ou violado;
  • onde haja justiça para todos.
IWHC: Como você conheceu a IWHC?

FH:
A primeira vez que eu ouvi falar da IWHC foi quando eu entrei para a Aahung, em 2003, pois a IWHC fornece financiamento para a Aahung. A IWHC é muito mais do que apenas uma doadora para a Aahung, ela é um modelo e uma fonte de inspiração para todos nós. Eles sempre acreditaram em nós e nos deram apoio e incentivo durante todos esses anos de parceria. Suas visitas ao Paquistão nos ajudaram a dar mais clareza e valor ao trabalho que fazemos.  
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