| Justiça, comunidade e espiritualidade: Uma conversa com a ativista nigeriana Ngozi Iwere |
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Andrea Lynch, IWHC: Como você começou a participar da luta pelos direitos da mulher na Nigéria? Ngozi Iwere: Não me lembro quando pela primeira vez tomei consciência de mim mesma como uma mulher que vive em uma sociedade na qual as mulheres são exploradas e opressas, mas creio que foi apenas por viver nessa sociedade e ver o que acontece nas famílias e nas famílias extensas. Só me envolvi oficialmente nas questões da mulher quando, como estudante, me tornei ativa na luta pela descolonização da África. Fazer parte dessa luta ajudou a dar-me uma consciência radical sobre os direitos da mulher como decorrência de todos os debates da década de 1970 sobre como mudar a sociedade. Naquela época havia duas grandes questões: a questão nacional e a questão da mulher. Assim era então apresentada na ideologia da esquerda. E naturalmente eu estava interessada no papel da mulher na luta pela autodeterminação nacional — o que aconteceria com elas mais tarde? AL: Você poderia falar um pouco mais sobre as relações do movimento das mulheres com outros movimentos sociais e políticos, especialmente nos contextos pós-colonial e pós-ditadura? NI: Na minha opinião, não pode haver movimento das mulheres que de fato as coloque onde elas querem estar na sociedade sem parte integrante de uma luta mais ampla pelos direitos humanos e pelo acesso aos recursos para todos na sociedade. Ao mesmo tempo, não pode haver um movimento com o objetivo de conseguir justiça socioeconômica ou sociopolítica para os membros fracos da sociedade, as classes mais baixas, sem colocar os direitos da mulher na agenda. É uma verdadeira luta porque agora, quase 30 anos depois, essas divisões ainda existem na forma como trabalhamos e nos organizamos. AL: O que você vê como outros desafios principais que enfrentam as mulheres e os movimentos feministas de hoje? NI: A meu ver, a insegurança é, de modo geral, um dos maiores inimigos que enfrentamos na arena do desenvolvimento social - insegurança esta devida, em parte, ao fato de o movimento ter progredido. Eu o vi crescer desde a década de 1970 até chegar a este ponto, de uma causa a uma carreira e profissão. Na década de 1970 a gente era feminista porque era mulher e por ser a causa em que se queria investir energia e recursos próprios e passar a vida fazendo isso, porque a gente queria levar a justiça social à sociedade. E presenciei a mudança de ser apenas uma causa e vocação para ser uma carreira. Agora é um trabalho e um cargo e, a meu ver, lidar com a insegurança pessoal decorrente dessa mudança — é meu trabalho, minha sobrevivência, meu futuro — faz parte do desafio que enfrentamos. Neste sentido, creio que deve haver muito mais orientação do que estamos fazendo atualmente. No momento concentram-se muitos esforços na saúde reprodutiva dos adolescentes e tenho certas preocupações a este respeito. Parece haver sempre algo novo que vai resolver os problemas do mundo e todos os recursos e todos os programas convergem para lá, mas amanhã vai ser algo diferente. Estamos dispensando muita atenção à saúde reprodutiva dos adolescentes, mas esse movimento tirou o impulso do aspecto político da saúde reprodutiva e sexual. Nós concentramos toda a nossa atenção na saúde e nós preocupamos em assegurar que os adolescentes estejam recebendo educação para a sexualidade e tenham acesso aos serviços e assim por diante, mas em termos de conscientização política não creio que se esteja dedicando atenção suficiente a que os jovens façam parte do movimento de defesa de direitos e do movimento em prol da saúde da mulher. AL: O que inspirou você a começar o Projeto de Vida Comunitária (CLP)? NI: No início da década de 1980 eu me envolvi na Mulheres na Nigéria (WIN), um grupo ativista de defesa dos direitos da mulher e uma organização feminista da qual os homens também participavam. Fui um dos membros fundadores da WIN. Comecei na sucursal do Estado de Kano e, em meados da década de 1980, fui secretária da coordenação nacional. Mas mesmo naquela época eu percebia que concentrar-se somente na mulher nunca levaria ao tipo de transformação radical das condições de ser mulher que nós imaginávamos para a Nigéria — quer falássemos de patriarcado ou de nossas relações com os homens ou de nossa capacidade de exercer nossos direitos reprodutivos ou até mesmo de nossa capacidade de conseguir saúde reprodutiva. Focar a mulher ou apenas uma questão não bastava — precisávamos trabalhar com os homens e com os jovens e mulheres em conjunto. Assim, eu era de opinião que somente se assumíssemos uma perspectiva comunitária poderíamos criar um ambiente sociocultural necessário para a mulher afirmar ou expressar sua plena personalidade como mulher. Não encontrei muito apoio para esta idéia entre minhas colegas do movimento em prol dos direitos da mulher, de forma que comecei o Projeto de Vida Comunitária (CLP) por frustração. Eu acreditava que, se houvesse uma intervenção na prática demonstrando claramente que um determinado enfoque funcionava, seria mais fácil iniciar debates e diálogos sobre o que era necessário, porque havia um modelo para servir de referência. Logo de início, o desafio para mim era criar esse modelo. Fui impulsionada por muitos fatores, inclusive frustração com o modelo de desenvolvimento que de modo geral adotávamos na Nigéria. Eu venho de uma tradição de ativismo político que luta pela transformação da sociedade em prol de todos os seus membros vulneráveis, especialmente dos desfavorecidos e das pessoas fora dos canais normais de comunicação e, em geral, em prol dos membros fracos da sociedade, dos quais, naturalmente, as mulheres são uma parte importante. Por este motivo o CLP fundamenta-se nas camadas da sociedade que estão fora dos canais normais de comunicação. AL: Como o CLP faz toda a comunidade participar de suas iniciativas para conseguir mudança? NI: Nós nos aproximamos das pessoas por meio de suas redes, afiliações existentes, como processo de iguais, a fim de que essas redes reforcem o comportamento que estamos ensinando. Assim vamos ao sindicato ou à associação ou à empresa ou ao grupo de igreja e lhes perguntamos sobre o que querem ser informados e então lhes proporcionamos tal informação. Abordamos questões difíceis — algumas tabus — e ensinamos às pessoas o que elas querem aprender como meio de reuni-las, não de separá-las. Temos conseguido assim ampliar a fronteira dos direitos sexuais e reprodutivos para todos sem abordar a questão diretamente, ou seja, sem criar resistência e desacordo. E este enfoque tem produzido resultados surpreendentes. Por exemplo, falamos a um grupo composto inteiramente de consertadores de pneus e lhes perguntamos o que queriam saber sobre o assunto e responderam: amamentação. Ficamos surpresas, mas eles realmente queriam conhecer o assunto, por suas irmãs, esposas e filhas. Era algo que eles queriam saber para transmitir às mulheres de sua vida e também para dela participar. Assim fomos em frente e lhes demos informações sobre amamentação e deste modo pudemos abordar várias questões diferentes sobre reprodução, paternidade e gravidez — e também mostrar aos homens como poderiam participar da amamentação da forma apropriada e levá-los a esse aspecto da maternidade e da vida reprodutiva da mulher. Os homens não têm seios, mas isso não significa que não possam participar de algo como amamentação — segurando o bebê depois de amamentado para a mãe descansar ou dando ao bebê uma mamadeira de leite materno ou de qualquer outra forma... Nós lhes mostramos meios como podem participar e que apóiem e envolvam a mãe e o filho. Os homens podem assim transformar-se em defensores e educadores da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher. Nós trabalhamos com homens desde o início, porque desde o início reconhecemos que não podíamos trabalhar apenas com mulheres ou com jovens — tínhamos de envolver toda a comunidade, a totalidade do mundo com o qual a mulher ou a pessoa jovem estão em contato. Não se pode simplesmente dar informações a uma mulher casada ou a uma jovem, por exemplo, dizer-lhe que exijam que seu parceiro use camisinha ou informações sobre seus direitos em matéria de sexualidade e reprodução e esperar que mudem sua vida por si sós, porque se voltam ao marido ou aos pais que não receberam informação a este respeito nem demonstraram tal perspectiva. Cria-se uma situação de conflito sem proporcionar o tipo de apoio e envolvimento abrangentes que mudam o comportamento de forma sustentável nos níveis tanto do indivíduo como da comunidade. Se focarmos apenas um grupo ou somente uma questão, alimentamos conflitos. Em vez disso, precisamos adotar um enfoque holístico e envolver toda a comunidade e isto significa ver os homens como aliados, como ativos, não como problemas ou perpetradores. AL: A experiência do CLP foi o que você esperava? Na sua opinião, como o enfoque mudou a vida das pessoas, tanto em casos específicos como de modo geral? NI: Creio que a experiência do CLP realmente transformou minha vida. Assim, foi bom eu não ter entrado nesta iniciativa pensando que ela somente transformasse a vida dos membros da comunidade, porque eu mesma fui transformada! Aprendi muito sobre o quanto eu era ignorante. Eu tinha muitas suposições falsas sobre quais eram os problemas. Eu pensei que soubesse e foi uma experiência muito gratificante conhecer as pessoas como elas são, no local onde estão. A meu ver, os nossos resultados mostram que este é o caminho a seguir para que as pessoas realmente se tornem guardiãs da própria saúde e bem-estar. Por exemplo, o CLP sempre trabalhou com homens para legitimar as preocupações de saúde reprodutiva e necessidades deles e ajudá-los a expressar seus direitos sexuais e reprodutivos de uma forma que não prejudique as mulheres e crianças. Nós queríamos envolver os homens como seres humanos completos — não simplesmente "envolvê-los" em questões relacionadas com a mulher. O CLP estava assim pondo em prática o "ABC" (abstinência, ser fiel, usar camisinha) há muito tempo, mas aplicando um enfoque diferente ao "ser fiel". Argumentamos que não se deve simplesmente dizer aos homens para serem fiéis, mas precisam receber apoio para compreender que ser fiel é melhor também para eles, não apenas para a parceira. Os homens podem tirar forças do fato de tomar a decisão de se interessar por uma única mulher e investir nessa relação — pode haver empoderamento para eles também. Neste processo de exploração da fidelidade aprendemos que a impotência é uma questão enorme para o homem. É algo de que querem saber mais e é também um dos fatores que os incentiva a sair e procurar relações sexuais fora do casamento, especialmente com mulheres mais jovens. Assim, se não abordarmos esta questão com os homens, dispensarmos atenção ao assunto, proporcionarmos informação e se não dermos aos homens espaço para compartilhar seus temores e frustrações, então o problema se tornará muito maior para toda a sociedade e terá um impacto negativo em outros aspectos além dos homens. Assim, procuramos ensinar aos homens a ter prazer sexual no contexto do casamento. Quando o homem diz que não quer ser infiel, mas não sente prazer no sexo com a esposa, nós lhe ensinamos como ser melhor parceiro sexual da própria esposa para aumentar o prazer dela e o dele próprio e assim tornar mais fácil a fidelidade. Procuramos ensinar aos homens que a impotência é natural, é parte do envelhecimento, não é uma doença nem um fracasso e eles podem permitir que isso aconteça de forma elegante e com dignidade. De modo geral, toda a experiência do CLP tem sido frutífera; e eu me tornei uma pessoa melhor do que era quando o iniciei. Aprendi a respeitar o universo constituído pelo indivíduo, o mistério do ser humano, aquilo que pensamos conhecer porque o vemos todos os dias em suas tarefas normais. Sabemos que ela trabalha no mercado ou é mecânica e sabemos como ela vive, mas em si ela é um profundo mistério e toda uma maravilha a ser descoberta. E trabalhando como fazemos no CLP ajuda a conectar-nos com esta maravilha de diferentes pessoas, a maneira como agem, o modo como se comportam, a forma de solucionar problemas, a maneira como analisam os próprios problemas, o modo como usam sapatos e como agem quando os sapatos estão apertando. Para mim essa educação e a maneira como trabalhamos são um manancial de forças. AL: O que mantém você como ativista? NI: Eu sempre tive uma forte consciência de mim mesma como indivíduo e como pessoa espiritual e sempre mantive um equilíbrio para assegurar-me de que não haja nenhum aspecto de minha personalidade que não acompanhe o passo. Isso me ajuda a olhar os desafios de uma perspectiva filosófica muito sólida. Ajuda a me colocar em perspectiva com relação a toda a humanidade: Eu sou apenas um pequenino grão de areia conectado com todas as outras pessoas, apesar de todas as divisões do mundo e é pouco o que posso fazer como pessoa — nós todos temos limitações. Assim eu encaro a situação e sinto que a sociedade caminha para frente. Às vezes me parece haver tanto mal no mundo, mas eu nunca me coloco em uma situação na qual me sinta paranóica ou amedrontada pelo que eu vejo de negativo, porque estou ciente de que muitas coisas boas resultam de algo aparentemente negativo na superfície. Dentro de tudo o que parecer negativo há as sementes do positivo e onde houve degeneração há por dentro uma semente de regeneração. Sinto também a dinâmica da história. Tal como os altos e baixos na vida de um indivíduo, temos momentos desanimadores na história, onde eu diria que as forças negativas parecem levar vantagem, mas também existe um processo de declínio em favor do avanço do que é positivo na humanidade. Assim eu adoto essa perspectiva e não vou dormir com nenhum problema. No fim do dia, uma vez em casa e fechada a porta, eu deixo tudo lá fora. Nada vai mudar se eu ficar me debatendo e virando na cama. Eu também tenho o sentido histórico de que agimos quando algo nos é relevante: se, por alguma razão, eu tiver de sair do CLP, será a hora certa de fazê-lo, será chegado o momento de fazer algo para acrescentar valor e vou precisar abrir mão. Uma última observação: enfrentar desafios e frustrações também é decorrência de identificar-se com toda a humanidade e esperar empatia e compreensão em todos os momentos e, naturalmente, superar o temor - todos os temores. Há muita bondade no mundo, mesmo nas pessoas de quem não gostamos, há bondade em todos. Assim eu me aproximo da vida esperando que me possa conectar com a bondade em todos e em todo o mundo e isso me ajuda a fazer o melhor que posso e deixar o resto de lado. E tal como eu tenho minhas limitações, outros serem humanos têm seus defeitos. Eles vêem as coisas de forma diferente de mim, não precisam ver as coisas como eu as vejo, não precisam acreditar no que eu acredito e eu não preciso acreditar no que eles acreditam e todo mundo está bem. Para mim, como ativista, o principal aspecto da vida é reduzir o dano que fazemos uns aos outros ao vivermos nossas convicções: como minimizar o dano ou o detrimento que podemos causar ao próximo em conseqüência do que acreditamos, de nossas convicções ou da forma como vivemos nossa vida? |
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